sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

As aventuras de Seu Alfacino: O esplêndido pé de fruta-pão

Longe de tudo que havia, lá para as bandas de Ouro Velho, seu Alfacino avistava aquela terra miúda, de campos abundantes que verdejavam sob o olhar do sol matutino. Caminhando por ali, não custou que algo lhe chamasse a atenção. Ouvia o profuso choro de uma dama. Era dona Cebolina, afogada em seus lamentos. Ousou o nobre senhor levantar indagações:

-Por que choras, senhorita?

-Como não lamentar uma desgraçada vida enfadonha e sem amor? Este fardo de viver que me descasca a pele e me corta o coração.

Compadecido, responde-lhe o andarilho:

-Não chores, minha amiga. Tempere seu pranto com a esperança de um amor verdadeiro com que a vida certamente há de agraciá-la.

-Como posso gozar de tal sorte, se aquele que tanto quero a mim também não deseja?

-Pois diga, futura senhora, por quem bate esse seu coração?

-Aquele de quem cujos afetos me são o sonho de uma vida, cuja presença me rouba o fôlego e por quem morro dia e noite é ele, seu menino, é seu Jiló.

- Bendita hora em que nossos caminhos se cruzaram! Trago-lhe a solução para esse mal! Acontece que, minha senhora, andando por rochosas estradas por onde a chuva não corre, nem o sol alcança, encontrei uma saca que, reza a lenda, quem nela adormecer, verá o seu sonho acontecer.

- Será mesmo, seu moço?

- Não estou lhe dizendo, mulher? Mas não demore. Quando o sol se põe, finda-se o encanto.

A ingenuidade de dona Cebolina suprimiu seu bom senso e a meiga senhora não tardou em entrar na saca de seu Alfacino. Aos trancos e barrancos, seu Alfacino amarra a saca no mais esplêndido pé de fruta-pão que lá havia. Desafiadora fora a tarefa, não mais porque dona Cebolina tinha sono pesado, somado ao fato de que ela estava exausta de tanta tristeza. Enquanto ali permanecia a bela adormecida, não custou o peregrino trocar uma ideia com seu Jiló. De semblante amargo, rosto enrugado, próprio da causticante vida camponesa, mira desconfiado a figura de seu Alfacino, que o aborda:

- Boa tarde, nobre homem. É o senhor o seu Jiló?

- Depende de a quem vá interessar.

- Meu nome é Alfacino, andarilho solitário das bandas de todos os cantos. É que me fizeram saber de um tremendo pé de fruta-pão que mora aqui nas redondezas. O senhor, é o que me disseram, conheçe esta terra como a palma de sua mão.

-Que tolice tamanha! Como se dá ao trabalho de andar léguas em razão de uma só árvore?

- O que me contam, seu Jiló, é que em todos os anos, no presente dia que hoje é, um pouquinho antes do pôr do sol, aquela formosura de pé presenteia o primeiro cavalheiro que lá aparece. Uma belíssima recompensa embalada em uma rústica saca marrom é despejada sobre o primeiro homem que se der ao trabalho de derrubá-la.

-Só pode estar curtindo com a minha cara.

-Pense o que quiser, eu é que não vou perder o meu prêmio! Somente peço que me oriente. Sorte de graça assim a vida não nos dá todos os dias.

Impressionado, Jiló logo trama contra seu Alfacino. Com argúcia e má informação, induz o peregrino à direção errada. Deu-lhe referências, pontos cardiais, placas que não haviam e outros logros.

-Certeza, meu senhor? É esse o caminho mesmo?

-Mais certo que isso, só dois disso.

Seu Alfacino se despede com forçada concordância. Seu Jiló, por sua vez, logo se apressa em sua caçada ao tesouro, esperançoso de dias melhores. Com uma enorme vara, cutuca com cuidado a saca, que despenca em seu colo. Ao abrir o invólucro, não se sabe quem olhou com maior espanto. Seu Jiló contemplava aquela bela figura feminina, que o olhava como criança que suplica por mimos.

No entrelaçar de almas que ali aconteceu, desfecho diferente não faria seu Alfacino mais satisfeito. Assim seguiu seu caminho, semeando felicidade por onde quer que passasse.